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Hipertrofia Sarcoplasmática existe?

Caro leitor, você deve se lembrar que a hipertrofia muscular é conceituada pelo aumento da área de secção transversa do músculo (AST) em resposta a sucessivos períodos de aumentos da taxa de síntese proteica miofibrilar (DAMAS et al., 2015).

De forma simplificada, o aumento da quantidade de proteínas miofibrilares dentro das fibras musculares seria responsável pelo aumento do tamanho do músculo em corte transversal (aumento da AST).

No entanto, crescentes evidências, têm desafiado o paradigma existente sobre esse conceito de hipertrofia muscular diante de achados mais recentes em que foi observado o aumento da AST sem incremento de proteínas miofibrilares. Ou seja, o que até então era conceituado como hipertrofia não é exatamente como pensávamos. Sei que você deve estar se perguntando. Mas, e daí? Calma que vamos chegar nessa parte da implicação prática!

Numerosos estudos têm observado o aumento da síntese proteica miofibrilar após o treinamento de força (TF), o que levou consistentemente a literatura científica a assumir que a hipertrofia muscular seria decorrente do aumento de proteínas miofibrilares (ROBERTS et al., 2020). No entanto, a constituição molecular do músculo representa aproximadamente 75% de água, de 10-15% de proteínas miofibrilares e aproximadamente 5% de proteínas sarcoplasmáticas (VANN et al., 2020). Sub- fracionada, dentro da fibra muscular, aproximadamente 85% do espaço é ocupado por proteínas miofibrilares e 15% de outras estruturas, incluindo mitocôndrias (5-6%), retículo sarcoplasmático, ribossomos, glicogênio, lipídeos e várias proteínas e enzimas, principalmente ligadas a via glicolítica, localizadas dentro do sarcoplasma (aproximadamente ocupando 9% do espaço) (ROBERTS et al., 2020). Para deixar mais claro, os componentes presentes dentro da fibra muscular são apresentados na figura a seguir.

Figura – Representação esquemática das estruturas presentes dentro da fibra muscular em um corte transversal (Adaptado de Roberts et al., 2020).

 

Caramba, tudo isso? Pois é, muitas estruturas compõem o músculo, logo, é de se imaginar que outras, além das miofibrilas, podem ser afetadas pelo TF, o que levou a busca por melhor compreensão científicas de tais estruturas musculares. 

Recentemente, em um estudo muito bem conduzido, foi observado após 6 semanas de TF com alto volume (32 séries semanais a 60% 1-RM) um aumento de aproximadamente 23% da AST das fibras musculares concomitantemente com uma redução de aproximadamente 30% de proteínas contráteis (actina e miosina) e um aumento de aproximadamente 66% de proteínas do sarcoplasma. Esses resultados indicam que o aumento da AST da fibra muscular não foi consequência do aumento de proteínas das miofibrilas, o que até então era o esperado pelo conceito de hipertrofia muscular. 

Na realidade, proteínas do sarcoplasma foram responsáveis pelo aumento do tamanho da fibra muscular, o que foi denominado de hipertrofia sarcoplasmática (HAUN et al., 2020). Apesar de ainda ser difícil determinar os mecanismos que explicam tais achados pelos estudos disponíveis, de forma bem interessante, foi sugerido que a característica em que é realizado os protocolos de TF pode ser responsável por diferentes tipos de hipertrofia (miofibrilar ou sarcoplasmática) (HAUN et al., 2020). 

Os achados acima trouxeram uma perspectiva sobre a aplicação prática desses resultados, uma vez que estes estão diretamente relacionados aos protocolos de treinamento. Especificamente, os autores do estudo supracitado sugeriram que protocolos de TF com maiores volumes e intensidades moderadas podem resultar em predomínio da hipertrofia sarcoplasmática, ao passo que protocolos de TF com menor volume e maiores intensidades podem predominantemente causar hipertrofia miofibrilar. 

Portanto, parece existir diferentes tipos de hipertrofia e distintos protocolos de TF podem modular essas respostas. Mas afinal, o que muda na prática diante desse conhecimento? Se os pesquisadores destes estudos estiverem certos, provavelmente isso poderia explicar alguns achados da literatura anterior em que se observa a falta de correspondência entre ganhos de massa muscular e força. 

Por exemplo, estudos utilizando protocolos de baixa intensidade (30% 1-RM) empregando a restrição de fluxo sanguíneo ou protocolos até a falha muscular, têm observado similares ganhos de massa muscular, mas menores ganhos de força quando comparados a protocolos de alta intensidade (≥80% 1-RM). Tais resultados permitem especular que a hipertrofia para os protocolos de baixa intensidade pode ser predominantemente causada por acréscimo de proteínas sarcoplasmáticas (não relacionadas a contração muscular), enquanto a hipertrofia miofibrilar (acréscimo de proteínas contráteis) pode explicar o aumento do tamanho do músculo nos protocolos de alta intensidade. 

Apesar desse conhecimento mecanicista não alterar o status atual da prescrição do TF, ele reforça a necessidade de protocolos com maior intensidade quando o propósito é obter hipertrofia conjuntamente com a força, ao passo que se o proposito for exclusivamente obter aumento do tamanho do músculo, tanto alta quanto baixa intensidades são eficientes. Contudo, cabe lembrar que esses novos conhecimentos ainda precisam de mais evidências e são de certo modo especulativos, tornando necessário novos estudos para verificar se de fato diferentes tipos de treinamento promovem diferentes tipos de hipertrofia. 

Independentemente desses novos achados da literatura, a prescrição do TF precisa ser pensada considerando a real necessidade e interesse do aluno, quanto ao aumento da força e/ou hipertrofia. Assim, os protocolos precisam ser direcionados seguindo essa perspectiva para que o professor seja mais assertivo em sua prescrição do TF. 

Por fim, caro leitor, aquilo que até então achávamos que já estava definido, ou seja, o conceito de hipertrofia, tem ainda muitos mistérios a serem desvendados. Logo podemos aguardar novos capítulos desse fascinante universo da hipertrofia e desfrutar dos conhecimentos que eles vão fornecer para que, em última instância, a prescrição do TF seja melhorada e os alunos beneficiados dos novos rumos do TF. Além disso, protocolos com diferentes intensidades e volumes parecem não somente afetar a força e o tamanho do músculo, mas também as microestruturas musculares responsáveis por tais adaptações. 

Ciente de que esse assunto ainda será muito explorado, espero em breve ter mais notícias e poder compartilhá-las por aqui! Afinal, ainda não sabemos verdadeiramente o que é hipertrofia!

 

Referências

DAMAS, F. et al. A review of resistance training‑induced changes in skeletal muscle protein synthesis and their contribution to hypertrophy. Sports Med, v. 45, n. 6, p. 801‑807, 2015.

HAUN, C. T. et al. Muscle fiber hypertrophy in response to 6 weeks of high-volume resistance training in trained young men is largely attributed to sarcoplasmic hypertrophy. Plos One, v. 14, n. 6, p. e0215267, 2020.

ROBERTS, M. D.; HAUN, C. T.; VANN, C. G.; OSBURN, S. C.; YOUNG, K. C. Sarcoplasmic Hypertrophy in Skeletal Muscle: A Scientific “Unicorn” or Resistance Training Adaptation? Front Physiol, 2020 Jul 14. doi: 10.3389/fphys.2020.00816.

VANN, C. G. et al. Skeletal Muscle Myofibrillar Protein Abundance Is Higher in Resistance-Trained Men, and Aging in the Absence of Training May Have an Opposite Effect. Sports (Basel), v. 8, n. 1, p. 7, 2020.

 

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